
Já estava atrasado, muito atrasado e no entanto ainda tinha vestido o roupão turco demasiado gasto e coçado, uma cópia do El País aberto à minha frente, e uma caneca de café amarela de louça onde se pode ler em letras garrafais rosa
Recuerdo de Zaragoza. Acendi um cigarro e olhei para a janela, onde a Sagrada Família se erguia imponente e segura, quase que reprovando a minha despreocupação e demora.
Beatas caiam sobre a toalha de plástico, onde se viam flores e gatos de cores saturadas e de traços imperfeitos. Destoavam do resto da cozinha, com os seus azulejos azuis e creme, com bancas de fórmica
comidas pelo sol e por anos de falta de limpeza. Um candeeiro em forma de coelho parece sorrir para mim do outro lado da cozinha.
A porta da rua fecha-se com força, e num piscar de olhos vejo Cármen, a minha companheira de casa...Cármen não é o seu nome de nascimento, mas sim o seu nome artístico (ou de guerra como ela gosta de dizer) e só agora acabou a noite de trabalho. Do cimo dos seus 186 cm de altura um carrapito muito instável balança com o seu andar, os olhos negros como azeitonas rodeados por sombra azul turquesa distribuída heterogeneamente.
Está cansada, não desta noite mas da vida que tem levado até agora. Está em Barcelona há 6 anos, dos quais mais de metade foram passados a trabalhar durante noites a fio na sua esquina lá prós lados do Gótico...
Diz que está cansada e que se vai deitar...Atira-me um beijo pelo ar, e ao passar pelo corredor acende uma vela à Virgem da Guadalupe, olha-se ao espelho e solta os longos cabelos castanhos, que caem como uma cortina pelas suas costas delgadas.
20 minutos depois estou já na rua a caminho do trabalho. Despenteado, com uns ténis rotos e uma t-shirt que já viu melhores dias, mas que nunca viu um ferro de engomar...Trabalho num restaurante indiano manhoso na zona velha da cidade, numa rua típica onde se encontram das personagens mais caricatas que se podem ver...E onde o cheiro a dejectos fisiológicos é constante...
Ponho um avental que já foi branco, mas que entretanto adquiriu uma tonalidade amarela e onde sobressaem nódoas das mais variadas formas e cores, herdadas do anterior funcionário: Ricky, que segundo me contaram está a cumprir pena por ter agredido a namorada, a mãe, ou ambas.
E o dia ainda só agora vai começar...
p.s. Só para deixar claro que as situações e personagens acima referidas são pura ficção...